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17.10.2007
“Olha a dona história!”
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Susanne Pappiér, contadora de histórias formada pela Casa e voluntária da ONG, trocou o Brasil pela Alemanha, mas não abandonou uma de suas atividades preferidas: encantar os ouvintes com belos contos de fadas e histórias maravilhosas:
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“Quinta e sexta-feira são meus dias de contar histórias para crianças. Gostaria de contar para adultos também, mas o assunto ainda é um pouco complicado. A maioria dos contadores de histórias na Alemanha são atores de teatro, que trabalham (e ganham) como contadores. Existe aqui um movimento para desenvolver o gosto pela leitura entre crianças. Voluntários vão às escolas e lêem PARA e COM as crianças. O ato da leitura é conhecido entre os voluntários. O ato de contar, não tanto.
Eu saio de casa e vou a pé até a estação da vila de Stenum onde moro, que dista 25 quilômetros da cidade de Bremen (uma cidade antiga, pertencente à Liga Hanseática). Bremen tem mais ou menos 500.000 habitantes. Stenum tem 7.000.
O trem leva 15 minutos até a estação central. Às quintas-feiras pego ainda um ônibus e depois de outros 15 minutos chego a um de meus destinos, num subúrbio de Bremen.
A creche é freqüentada por mais ou menos 80 crianças de seis meses até seis anos. São de várias nacionalidades, quase todas elas de nível socioeconômico baixo. Há muitas estrangeiras. As mais agitadas são as turcas. As mais quietas, africanas. As brasileiras são tímidas (deve ser por causa do idioma!). As alemãs têm de tudo um pouco. Nessa creche é difícil contar, justamente pela miscelânea de nacionalidades e de comportamentos. Mas com o tempo fui aprendendo a lidar com as crianças. Hoje, quando chego, elas chamam de longe:
– Olha a contadora de histórias, olha a dona história! — Como aqui é costume chamar as pessoas pelo nome de família, elas têm dificuldades para pronunciar meu nome, Pappiér. |
Nas primeiras vezes, ficavam paradas e não sabiam o que significava “dar um abraço”! Hoje, quase me derrubam. |
Ficam encantadas com o pin, adoram a abertura com as vogais e esperam sempre a atividade de encerramento com o abraço, quando cantamos: “Levantar um braço, levantar o outro, escolher um amigo e dar um abraço”. Nas primeiras vezes, ficavam paradas e não sabiam o que significava “dar um abraço”! Hoje, quase me derrubam.
O grupo sempre varia. Todas as semanas, a professora pergunta quem quer ouvir histórias. Como muitas querem, são escolhidas pelas professoras. Nunca mais que dez. |
Mais três
Nesse bairro fica ainda uma segunda creche, mais bem organizada e com menos crianças estrangeiras. Às sextas-feiras vou a uma creche no centro de Bremen. Há crianças estrangeiras e alemãs, como as outras duas, mas o comportamento é totalmente diferente. São na maioria quietas e prestam bastante atenção. Tenho quatro grupos lá, cada um com 20 crianças. Conto alternadamente para dois grupos numa sexta e para os outros dois na outra semana. |
É hoje o dia!
Adoro falar e brincar com as crianças, quando chega a quinta-feira eu acordo alegre e penso: é hoje o dia! Preparo sempre algumas histórias, mas muitas vezes elas pedem uma diferente, ou eu resolvo mudar por conta própria. Às vezes peço para elas desenharem o que ouviram, mas quase nunca funciona. Elas desenham com dificuldade, mesmo as de seis anos. Será falta de costume ou de fantasia? Todas gostam de histórias repetitivas ou quando elas participam – por exemplo, um esquilo está no bosque procurando comida; o que ele gosta de comer? Daí a criançada diz: “nozes”, e eu tiro uma noz do avental. Esse tipo de história sempre é bem visto.
É interessante é observar que mesmo as crianças mais “difíceis” (menos sociais), depois de algum tempo, fazem questão de contar uma história. Às vezes é uma mistura do que ouviram, outras vezes é algo inventado. Querem sempre contar sozinhas e adoram tocar o pin.
Já as crianças da creche no centro de Bremen, que têm um nível socioeconômico mais privilegiado, não gostam tanto de contar histórias. Será que há alguma explicação?
Resumindo, só posso reafirmar o que todos nós, contadores de histórias, estamos cansados de saber: não importa onde nem importa a quem, as histórias fazem um bem enorme, tanto para quem as ouve quanto para o contador. Aliás, acho que na verdade elas são necessárias para entendermos a trajetória do herói, que no fundo somos todos nós. Elas ajudam na integração social, despertam a conscientização e desenvolvem a fantasia. Certa vez, uma menina queria que eu contasse uma história sobre a neve. Parei, pensei e disse:
— Vamos ver se eu me lembro de alguma. — E ela então retrucou:
— Mas as histórias não estão aqui no espaço? É só tocar o pin!" |
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