As três perguntas – II

Certo rei um dia apercebeu-se que se soubesse sempre a hora de começar, se soubesse sempre quem eram as pessoas a ouvir e a quem evitar, e acima de tudo, se soubesse o mais importante a fazer, ele nunca falharia no que empreendesse.

E quando lhe ocorreu a idéia, proclamou por todo o reino que daria uma grande recompensa a quem lhe pudesse ensinar a hora de agir, quem eram as pessoas mais necessárias e como poderia distinguir o mais importante a ser feito.

E homens cultos vieram ter com o rei, mas cada qual respondeu às perguntas de maneira diferente.

Tão distintas foram as respostas que o rei não concordou com nenhum deles e não deu a recompensa a ninguém.  Mas, ainda desejando encontrar a resposta certa para sua pergunta, decidiu consultar um eremita muito conhecido por sua sabedoria.

O eremita vivia numa floresta de onde nunca saía, e não recebia ninguém a não ser pessoas comuns. Então, o rei vestiu roupas simples e, antes de chegar à casa do eremita, apeou do cavalo e, deixando seu guarda-costas para trás, foi sozinho.

Quando o rei se aproximou, o eremita cavava o chão em frente à sua cabana. Vendo o rei, cumprimentou-o e continuou cavando. O eremita estava fragilizado e enfraquecido, e cada vez que enfiava a pá no chão e remexia um pouco de terra, inspirava profundamente.

O rei veio até ele e falou:

– Vim ter contigo, ó sábio eremita, para pedir-te que respondas a três perguntas: como posso aprender a fazer o que é certo na hora certa? Quem são as pessoas que mais preciso, e a quem devo, portanto, prestar mais atenção aos demais? E que assuntos são os mais importantes e precisam primeiramente de minha atenção?

O eremita ouviu o rei, mas nada respondeu. Apenas cuspiu em suas mãos e recomeçou a cavar.

– Estás cansado, – disse o rei. – Deixa-me pegar tua pá e trabalhar um pouco para ti.

– Obrigado! – disse o eremita, e dando a pá para o rei, sentou-se no chão.

Depois de ter cavado duas sementeiras, o rei parou e repetiu as perguntas.

Novamente o eremita não respondeu, mas levantou-se, esticou a mão para a pá e disse:

– Agora descansa um instante e deixa-me trabalhar um pouco.

Mas o rei não lhe deu a pá e continuou a cavar. Uma hora se passou, e mais outra. O sol começou a descer por detrás das árvores, o rei finalmente enfiou a pá no chão e disse:

– Vim a ti, sábio homem, para obter respostas às minhas perguntas. Se não podes me dar nenhuma, dize-me então e voltarei para casa.

– Vem alguém correndo, disse o eremita. Vamos ver quem é.

O rei virou-se e viu um homem barbado sair correndo da floresta. O homem trazia as mãos pressionando o próprio flanco e por ali lhe escorria sangue. Quando alcançou o rei, caiu desmaiado no chão, gemendo baixinho. O rei e o eremita afrouxaram suas roupas.  Havia uma grande ferida em seu corpo, o rei lavou-a o melhor que pôde, cobriu-a  com seu lenço e uma toalha do eremita.  Mas o sangue não parava de jorrar, e o rei muitas vezes lavou e cobriu a ferida.  Quando finalmente o sangue estancou, o homem se recuperou e pediu água para beber. O rei trouxe água fresca e deu-a para ele. Entrementes, o sol se pôs e começou a fazer frio. Então o rei, com ajuda do eremita carregou o ferido para dentro da cabana e carregou-o para a cama. Já deitado, o homem fechou os olhos  e se aquietou, mas o rei estava tão cansado da caminhada e do trabalho que havia executado  que se agachou na entrada e também pegou no sono – tão profundamente que dormiu toda a curta noite de verão. Ao despertar pela manhã, demorou a se lembrar onde estava, ou quem era aquele homem barbado deitado na cama  e encarando-o tenazmente com os olhosbrilhantes.

– Desculpe-me! – disse o homem barbado com voz fraca, ao ver que o rei estava acordado e olhando para ele.

– Não te conheço e não tens nada a ser perdoado – disse o rei.

– Não me conheces, mas te conheço. Sou aquele inimigo que jurou vingar-se de ti por teres executado seu irmão e tomado sua propriedade. Soube que vinha sozinho para ver o eremita e resolvi matar-te pelas costas. Mas o dia passou e tu não voltavas. Assim, saí de minha emboscada para encontrar-te e cheguei até teu guarda-costas, eles me reconheceram e feriram. Eu escapei deles, mas teria sangrado até a morte se não tivesses cuidado de minha ferida. Eu queria matar-te e salvaste minha vida. Agora, se eu sobreviver, servir-te-ei como o mais fervoroso servo e direi a meus filhos para fazer o mesmo. Perdoa-me!

O rei ficou muito satisfeito por ter feito a paz com seu inimigo tão facilmente e por tê-lo conquistado por amigo; portanto, não apenas o perdoou como disse também que mandaria seus servos e seu próprio médico atendê-lo, e prometeu devolver-lhe a propriedade.

Tendo deixado o homem ferido, o rei foi para o alpendre e procurou pelo eremita. Antes de ir embora, desejava mais uma vez solicitar respostas para as perguntas que fizera. O eremita estava lá fora, ajoelhado, plantando na sementeira que havia sido cavada num dia anterior.

O rei aproximou-se e disse:

– Pela última vez, peço que respondas às minhas perguntas, homem sábio.

– Já recebestes tuas respostas, – disse o eremita, ainda agachado sobre as pernas delgadas e erguendo os olhos para o rei, que se postava diante dele.

– Como? O que queres dizer? – perguntou o rei.

– Não vês? – replicou o eremita. – Se não tivesses ficado com pena de minha fraqueza ontem e cavado essas sementeiras para mim, mas tivesses ido embora, aquele homem o teria atacado e terias te arrependido por não teres permanecido comigo. Por isso, a hora mais importante foi quando cavavas as sementeiras; eu era o homem mais importante, e fazer-me um favor foi a coisa mais importante. Depois disso, quando aquele homem chegou correndo, a hora mais importante foi quando cuidavas dele, pois se não tivesses cuidado de suas feridas ele morreria sem estar em paz contigo. Por isso, ele era o homem mais importante, e o que fizestes por ele foi a coisa mais importante. Lembra-te então: há somente um momento que é importante: agora! É a hora mais importante porque é o único instante sobre o qual temos algum poder. O homem mais necessário é aquele com o qual estás, pois ninguém sabe se vai tornar a lidar com outro alguém; e o assunto mais importante é fazer o bem para ele, pois com esse propósito apenas, o homem foi enviado para essa vida.

Autor: Leon Tolstoi

Extraído de: Livro das virtudes II: o compasso moral

William J. Bennet (Org.). Rio de Janeiro: Nova Fronteira

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