Conta a lenda que, depois de criar o mundo, o Criador idealizou homem.
Fez, então, um protótipo de barro à sua semelhança. Mas deu-se conta de que este não passava de um boneco sem vida. E decidiu animá-lo.
Chamou a alma e ordenou que fosse habitar o modelo de barro. Porém, a alma não o obedeceu. Era tão livre, tão leve, por que razão haveria de agora confinar-se?
O Criador tentou convencê-la de todas as formas inutilmente. Tentou por fim agarrá-la, para, à força, fazê-la entrar no boneco recém-criado. Mas a alma evadia-se, escapulia, deixava-se escorregar por entre seus dedos, que não podia retê-la. O Senhor experimentou ameaçá-la, mas em vão, a alma não se submeteu.
E o Criador não viu outra saída. Convocou um anjo musicista e construiu com ele e em segredo um artifício que logo puseram em prática: o anjo começou a tocar sua flauta, pois sabia que a alma não poderia deixar de ouvi-la. A música era tão linda e a alma, atraída pela doçura do som, foi-se chegando. Estava já inebriada.
O anjo caminhou com sua flauta, sem parar de tocá-la. A alma, dançarina, movimentava-se em êxtase atrás dele. Onde quer que fosse o anjo, a alma o seguia de perto, magnetizada.
Ao chegarem perto do protótipo de barro, a alma, extática, dançava, perdida no amor da música. E o anjo pulou para dentro do boneco, com a alma atrás.
O anjo, então, rapidamente, pulou para fora, fechando a porta num único movimento, lá dentro deixando a bailarina.
E assim, a alma, que é toda liberdade, tornou-se prisioneira no boneco de barro, de onde sonha com o dia em que voltará a voar por entre as coisas e a dançar, livremente, nas mais altas paragens dos céus.
Essa história é uma lenda indiana.
