Os Saberes do Contador

senhoras idosas 3ª terceira idade

Adriane Zeni

O ponto de partida

é o mesmo.

Na estrada,

os caminhos

do caminho

são muitos.

Peregrinação

 ora doce,

ora amarga,

salgado rastro.

O objeto de estudo do contador de histórias pode ser dividido em três grandes blocos de saberes. As histórias e como contá-las, que aparentemente são independentes – um ligado à literatura e outro ao teatro – são os mais evidentes. Porém há uma cola muito resistente que entrelaça esses dois aspectos da contação: os saberes ligados às humanidades,  acumulados desde que o primeiro homem ou mulher fez o primeiro gesto ou o primeiro som para expressar algo que não se fazia presente, para acalentar alguém ou para dar significado ao desconhecido. Um saber que se construiu a partir da pergunta “quem sou eu e o que estou fazendo aqui” e de respostas mágicas, espirituais, religiosas, filosóficas e racionais.

A contação, portanto, vai além do entretenimento. É uma atividade humana com uma intenção muito mais profunda, a qual pode ser descortinada pelas psicologias, filosofias, antropologia, ciências humanas, enfim.  E é sobre tudo isso que vamos conversar agora.

Porém, antes de continuar, preciso explicar que essa verdade do contar é apenas uma das tantas possíveis. Conheço contadores que fazem seu lindo trabalho com a faceta que olha a beleza da palavra, do signo. Há também aqueles que fazem performance maravilhosas vivenciando e representando dramaticamente boa parte do enredo. São opções tão verdadeiras quanto à minha e à do grupo que represento: a de que as histórias são um símbolo, um presente da humanidade passada para a humanidade presente; presente do presente pro futuro. São uma forma de “me conhecer” através do outro que já as contou um dia, mas principalmente daquele que está à minha frente, contando ou ouvindo.

Também quero salientar que vou abordar a narração oral, feita por um contador à uma audiência, ambos de carne e osso, mas o que vamos estudar aqui também se aplica a outras modalidades de contação de história: literatura, cinema, games, séries de tv…

Certeza só se tem uma:

De tudo que vês só o ouro sobrará:

a flor do lótus, a joia do dragão

Se a única certeza que se tem ao nascer é que um dia tudo passará, o “felizes para sempre”, então,  pode existir? O proposto pelo contos de fada, sim. Pois essa felicidade não é a material, é a espiritual. É o casamento da heroína com ela mesma, da alma da terra com o sagrado, da matéria com o espírito,  é a supremacia do herói sob sua selvagem natureza. É isso que as histórias expressam e por isso são universais e atemporais. É por isso que sobreviveram às religiões, à fundamentalismos, às políticas, às tiranias e todos os ismos.

 As histórias tradicionais, portanto, têm muito mais que uma narrativa. Se sobreviveram por tanto tempo é porque falam outra língua, a língua do símbolo, da alma, do inconsciente.  Todos nós um dia fomos gata borralheira, que nas voltas que a vida deu, perdeu o pai, a liberdade, o sapato e mutilou o pé para que coubesse em outro, mas que dispostos a sobreviver procuramos o sapato certo, no intuito de nos tornarmos Cinderela.

Te olha e te pergunta quem você é.

Se tua alma reponde,

é porque caminha.

Se se cala,

é porque perdida, passiva,

ainda não lembra sobre o que diz vida.

Cada história ancestral é uma receita para a vida, aviada por gerações que buscam a essência da sabedoria humana. Os mitos são as mais arcaicas e mais contadas, principalmente pelas religiões. E justamente por isso foram, e são, perseguidos, rechaçados, obrigados a se esconder sob a máscara de histórias ingênuas, os contos de fadas. Como os mitos seguram a bandeira da fé se transformaram muito pouco, já as histórias maravilhosas, propriedade do povo, tomaram cores e sabores regionais. Isso fica evidente na diferença entre contos recolhidos em países católicos, onde o perdão é muito recorrente, dos compilados nos países protestantes, nos quais o antagonista amarga os mais deliciosos castigos.

Independentemente de profissão de fé, de ideologia, de moral, os mitos e os contos de fada nos dizem que precisamos aprender a ser mais humanos, a controlar instintos e nos dizem como fazer isso: com sabedoria, com empatia, com a mais valiosa de todas as virtudes: a fraternidade. Nunca esquecendo que tudo que existe caminha rumo à evolução, conquistada também, e principalmente, entre os seres vivos com a procriação, o sexo, o casamento do final da história. É dever de minha geração propiciar que a geração futura seja melhor que a minha. E já que temos essa missão, que venham os manuais herdados de nossos antepassados: as histórias.

Antes de continuar preciso esclarecer: estou falando de histórias com valor simbólico, não de histórias moralizantes, que tentam formatar pessoas. Falo de histórias que conversam com o inconsciente, que transformam a forma de pensar, de sentir, de agir. Histórias que nos ligam ao divino, não porque se aproximam de doutrinas, mas que nos conectam com o eterno que está em todos os lugares, inclusive dentro de nós. Então quando falo de manual, não me refiro à receita do como agir, mas à receita do como ler e levar a vida, soprada bem baixinho em nossos ouvidos por uma fada, uma inspiração, uma intuição, mais ou menos assim:

Te prepare, crie músculos, moral, sabedoria, porque que no dia que um vendaval passar por aqui você vai ter duas opções: ficar preso no furacão da tragédia ou usá-lo como escada de um novo possível caminho. E lembra: a vida é uma trama, não um drama

Se você leitor já tem afinidade com, digamos, algo ligado ao hermetismo, ao esoterismo, à astrologia, à antroposofia, à teosofia, já percebeu que de certa forma, atrelo os saberes das histórias a eles. Engrosso esse caldo ainda com a psicologia analítica, com o que aprendi com minha avó e com as pessoas sábias que o grupo a que pertenço conviveu ao contar histórias, entre elas: velhinhas e velhinhos dos asilos de Curitiba, crianças especiais e jovens detentas.

A avó da minha avó sempre dizia:

quem conta história de dia

ganha rabo de cotia.

Acho que foi ela que ensinou

aquele que botou,

a novela antes do sonho.

Tanto as histórias quanto os sonhos falam a mesma língua: a da intuição, a do inconsciente, a simbólica. São imagens daquilo que racionalmente não pode ser explicado totalmente, mas que satisfazem necessidades da psique humana, porque nos conectam à nossa essência, que na maior parte das vezes desconhecemos.

E é justamente aí que mora a magia da contação de história. Se o narrador oral tem ciência disso sabe até onde pode ir sua performance e até onde pode mexer na estrutura da história. Sabe que tudo o que faz é para projetar a imagem na mente de quem o ouve e não para mostrar a cena; que a contação é uma conversa intuitiva de inconsciente para inconsciente.

Trabalho há uns dez anos com professorandas que contam histórias. E já quando comecei este trabalho percebi que algumas se esmeravam muito, mas seus contos orais não pescavam nem as crianças nem a mim; já outras que se deixavam navegar pelas águas do enredo, encantavam feito feiticeiras.

Gostaria de deixar claro que não estou tratando aqui de arte terapia, nem tenho cabedal para isso, estou apenas tentando desvelar por que, ainda hoje, com tantas narrativas em suportes digitais,  a narração oral agarra a audiência. Por que, ainda hoje, em certos momentos históricos há a ressurreição de mitos, heróis e contos de fadas da antiguidade.

Se a abelha tem a colmeia,

a formiga, o formigueiro,

a andorinha, o sul,

o homem tem o caminho do mito.

É justamente porque falam com o instinto humano que os mitos agarram.

Se você leitor, achar isso estranho, busque na leitura de “O homem e seus Símbolos”, livro organizado por Carl Jung no final de sua vida para o leigo que se interessa por psicologia analítica, uma explicação mais completa.

Resumidamente, a psicologia analítica coloca que a nossa forma de pensamento é herdada e por isso é comum à toda humanidade. No nosso inconsciente estão forças que desconhecemos e por isso às vezes as animalescas nos dominam e as virtuosas, dormem . Durante a vida precisamos  conhecê-las, iluminá-las e colocá-las a nosso dispor. É isso que os mitos ensinam. É por isso que Hércules se cobre com a pele de seu leão. É por isso que os mitos enchem a alma em momentos de aflição. É por isso que uma civilização sem mitos sucumbe a neuroses, vícios e compulsões ou “mitos” produzidos para dominá-la.

E se o contador é bom,

o ouvinte não lembra

de quem narrou a história.

Lembra sim,

de si mesmo protagosnista.

No livro que citei acima, Marie-Louise von Franz, escreve sobre o processo de individuação. Resumidamente esse é o processo pelo qual vamos em busca de nós mesmos, amadurecemos, dominamos instintos, a guerra com o inconsciente abranda, o homem deixa de ser o peão para ser aquele que joga os dados da própria vida. E as histórias ajudam a fazer isso. Elas possibilitam nos despir das máscaras e das peles, para que encontremos nossa essência. E como fazem isso? Com o símbolo, a língua do sonho, da intuição e do inconsciente. É como se elas dessem ferramentas para o herói ou heroína se lançarem à essa aventura de autoconhecimento e de integração das estruturas do inconsciente ao consciente.

Imaginemos que a história é uma metáfora para esse processo ou parte dele. Cada uma das personagens é um aspecto da psiquê do herói, que precisa ser resgatado, iluminado ou integrado. São suas aliadas ou suas antagonistas. Cada objeto representa seu modo de ver o mundo, de levar a vida. Cada erro, um momento de aprendizagem; cada batalha, uma crise que pode levar ao amadurecimento. Cada arma conquistada é uma virtude que desabrocha no jovem príncipe enquanto se transforma em um homem adulto. Cada vitória, a domesticação de um instinto, do monstro e do vício que teimam em brotar das entranhas desse protagonista. É a conquista da autonomia, a libertação da moral e dos papéis sociais.

E será que um contador de histórias precisa saber disso? Se desejar e a meu ver, sim. Precisa saber para escolher a história, para modernizá-la sem transformar ou suprimir o símbolo, para perpetuá-la. Para saber que fala com a voz da intuição para o ouvido da alma.

Antes de ser

Era uma vez

E depois

Para sempre

Até ser

Mais uma vez

Era uma vez.

O contador de histórias tradicional tem nas mãos e na boca o mistério da existência humana. São narrativas que escondem símbolos para serem lidos por quem tem a chave para tanto.

“Chegando-se a ele os discípulos, disseram-lhe: ‘Por que razão lhes falas por meio de parábolas?’ Ele respondeu-lhes: ‘Porque a vós é concedido conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é concedido. Porque ao que tem lhe será dado (ainda mais), e terá em abundância, 5689mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. Por isso lhes falo em parábolas, porque vendo não vêem, e ouvindo não ouvem nem entendem. E cumpre-se neles a profecia de Isaías (6,9-10), que diz: Ouvireis com os ouvidos, e não entendereis; olhareis com os vossos olhos, e não vereis. Porque o coração deste povo tornou-se insensível, os seus ouvidos tornaram-se duros, e fecharam os olhos, para não suceder que vejam com os olhos, e ouçam com os ouvidos, e entendam com o coração, e se convertam, e eu os sare” (Mt 13, 10-15).

  E mesmo quem não tem a chave, ou a sabedoria, como diz Cristo na citação que colei acima, pode ouvir com os ouvidos do inconsciente, que aos poucos vai se aconchegando nas façanhas heroicas e, com isso, abrindo as portas de seus labirintos.

 O contador de histórias, se tiver essa chave, pode ganhar mais fluência na língua simbólica. Veja, não preciso necessariamente estudar psicologia ou filosofia para falar esta língua, uma vez que nossos ancestrais analfabetos a falavam fluentemente. O problema é que hoje tendemos a falar e ouvir apenas o dialeto da razão e, por isso, precisamos refletir sobre a fala que não vem da cabeça, mas de algum lugar entre a base do pescoço e o alto do ventre. Lembro que o contador conta histórias, não as racionaliza; fala ao inconsciente. Não dá as chaves, deixa o ouvinte a usar as que tem. O sábio é aquele que sabe até onde deve ir.  O mentor, nas histórias, acompanha o herói até a boca da caverna, para que, sozinho, este cumpra sua jornada. Faço isso neste texto com você leitor. Dou pistas do que diz a psicologia analítica, mas não falo de inconsciente coletivo, individuação ou arquétipos; dou pistas esotéricas e de diferentes vertentes da filosofia, tentando não falar de religiões, para não ferir ninguém. Instigo para que você trilhe seu caminho de aprendizado sobre os saberes das histórias, para que, no final das contas, tenha plena consciência da intenção do seu narrar, seja ele qual for.

Do mito ao rito

que torna a ser mito

pra ser religião

longa da Disney

ou quadrinho Marvel.

E vamos continuar a falar das humanidades…

Foi tentando justificar a própria existência e a existência de tudo a seu redor que os humanos criaram as primeiras narrativas fantásticas, as quais foram evoluindo e passaram a roteirizar os rituais e dar suporte às religiões. Se transformaram em conhecimento místico, em símbolos do mistério divino, propriedade de iniciados, instrumento de poder e dominação.

É claro que não é só a própria origem que intrigava ao homem. A indagação sobre seu papel no mundo também ululava em seu pensamento e se transformou em histórias, que baseadas em suas experiências e nos ciclos da vida, passaram a narrar façanhas de heróis míticos: Hércules, Aquiles, Arthur, Gawain, Thor, Bhagavad Gita, Moisés, … Querendo ou não, seja em que civilização for, esses enredos respondem à questão levantada acima e pedagogicamente ensinam qual é a melhor forma de levar essa jornada que é a vida.

Na rede das histórias

 linhas que se cruzam:

 tempo e espaço.

Trama que cobre o globo,

 presa por estacas

 da terra ao céu.

As narrativas de heróis também estão profundamente ligadas à religião – um exemplo são as do velho testamento e dos demais livros sagrados – e são uma ponte do homem com sua espiritualidade. Cada uma delas é uma lição de transcendência, de ética, de moral e de bem viver. Eram contadas por grandes sacerdotes e grandes contadores de história, como Homero. Na boca do povo foram se transformando –  talvez por perseguição ideológica perdendo parte de seu valor simbólico e espiritual – em contos maravilhosos, contos de fadas e  em fábulas  e lendas.

É na ignorância se si mesmo

que a fera fere aquele que ama.

Se os mitos falam ao conjunto da humanidade, os contos de fadas falam algo a cada um de nós, dão resposta à questão: “quem sou eu?” e ainda : “quem é esse que às vezes sai de dentro de mim e faz, pensa ou sente coisas que não compreendo?”.

A essa altura já está mais que justificado o porquê da psicologia moderna resgatar as narrativas ancestrais e porque as histórias, em todas as civilizações, foram e são usadas por motivos terapêuticos; como remédios para o corpo, à alma e aos relacionamentos, sejam eles íntimos, familiares ou profissionais. Está explicado também porque a poção que cura também adoece: as narrativas são a melhor forma de dominar e ludibriar massas, de moldar pensamentos e controlar comportamentos – quer um exemplo: assista um bloco de propagandas na tv e conte quantas se valem de uma história para vender um produto.

Está justificado e explicado o porquê se deve contar mitos e contos de fadas às pessoas que já passaram da infância, porque adolescentes esquecem de seus corpos quando ouvem essas histórias, amam filmes e games de super heróis.

            Eu sou pobre,pobre,pobre
de marré, marré, marré
Eu sou rico,rico,rico
de marré,deci


Eu de pobre fiquei rico
de marré, marré, marré
Eu de rico fiquei pobre
de marré,deci

(Cantiga popular brasileira)

Até agora falamos basicamente de mitos e contos de fadas. Isso não quer dizer que proponho que um contador de histórias só trabalhe com estes gêneros textuais, mas dentre todos, esses são os que mais exigem conhecimento por parte de quem os conta.

Me propus no início desse texto desvelar a sabedoria humana das histórias e por isso ainda não citei outro tipo de narrativa. Vejamos se consigo justificar apenas citando a você leitor algumas características das histórias que narradores contam:

As facécias (tipo Pedro Malasartes e Nasrudim) contam apenas uma história cômica;  é uma imagem engraçada, com, talvez, crítica social. As lendas justificam porque coisas, objetos, lugares existem; constroem uma imagem fantástica, mas não simbólica. As fábulas contêm uma moral muito clara e certeira; a lição a ser apreendida é evidente. Essa moral também está no conto de fada, quando o bem vence o mal, porém esse gênero apresenta muitos véus a serem descortinados por quem pretende interpretá-lo. Já os mitos contam histórias divinas, não precisam de justificativas morais e exigem chaves iniciáticas para sua interpretação.

            Se o narrador não tem noção disso, transforma toda história que conta em facécia (isso vale também para literatura, cinema, etc.).

            Por necessidade e fins didáticos, ainda acho necessário caracterizar um pouco mais as histórias simbólicas. Não que a interpretação do símbolo seja necessária ao contador – essa ferramenta só é necessária a quem lê o sonho e o tarô – mas a noção que ele está onde está, sim.

            Já vimos até aqui algumas particularidades desse tipo de histórias. Com base no que estudamos poderíamos enquadrar narrativas como Harry Potter, Senhor dos Anéis e Star Wars como mito ou conto de fadas, certo? Errado: não são mitos porque foram criados como ficção; não são contos de fadas porque cada um possui um único autor, que intencionalmente escolheu símbolos para expressar uma ideia. São apenas histórias com a mesma estrutura de enredo e de símbolo.

            O mito está muito ligado a crenças e em seu bojo há um diálogo explícito com o divino. Já nos contos de fadas esse diálogo está camuflado. É difícil traçar uma fronteira entre os dois justamente porque entre eles há a figura do herói mítico, personagem que se transformou no protagonista dos contos de fada; porque cada um dos mitos foi recortado, colado e transformado em dezenas de contos de fadas. Por exemplo, podemos traçar um paralelo entre o casamento de Afrodite e Hefesto, “Heros e Psique” e  “A Bela e a Fera”: todas fazem uma reflexão entre o que é o amor verdadeiro, entre a aparência e a essência, a matéria e o espírito.

            E sim, os contos de fadas também apontam para o caminho do divino. É a união da princesa, da alma aprisionada ou adormecida da terra, ao príncipe espírito, aqui, agora, durante a vida. É Aladim libertando o deus gênio e o vendo em todos os lugares. É a indecisão da heroína entre o galã matéria e o monstro sublime. É a escolha entre a busca da unidade e o efêmero tempo. É dar sentido para a vida. É calçar o sapato que cabe no pé.

            Não é que o mito possa substituir a vida, muito pelo contrário – o ser humano é gregário, e só pode se realizar com outros seres humanos. O símbolo ensina a ler a vida e agir com sabedoria sobre ela. É como se ele fosse as cartas de tarô sobre a mesa do cosmo. Aquele que tem competência para lê-las, poderia aprender a fazer escolhas com mais facilidade.

            E o contador de histórias que tem competência a essa leitura, terá outra intencionalidade (uma vez que ela sempre existe) em seus gestos e em sua fala. Se conhece dilema simbólico por traz da traição de Guinevere, pintará essa rainha com cores muito mais sublimes e a espada de Lancelot sempre será posta ao chão. Se sabe que em Branca de Neve é a alma, presa no caixão de vidro apático da matéria, que é resgatada pelo self, falará a língua do encantamento, da magia.

E qual o segredo do contador que encanta?

O da bruxa, do alquimista, do curador xamânico, do mito:

 a imagem magia.

O de lá, sobre o de cá

luz ou sombra

 gestada a mel, melancolia ou fel.

            Não é à toa que em muitas civilizações o contador e o feiticeiro são a mesma pessoa. É justamente porque a imagem tem a capacidade de evocar muito mais que palavras. Me assustei quando soube que a acupuntura tradicional propunha, ou propõe, projeções de imagens durante o tratamento. Parece-me que é isso que uma lei hermética propõe. Não é à toa que a imagem da história ouvida muda nosso jeito de agir no mundo e de superar crises.

            Portanto contador, cuidado com as histórias que conta, ou melhor, do jeito que as conta. Adolescentes adoram contos de fadas carregados de sangue. Você pode e deve contá-los sim, desde que as atrocidades sejam uma forma de armar o herói com a iniciativa, um degrau para o final sublime.

            Preciso fazer um parêntesis: atualmente há um movimento para se reinserir a morbidez perdida nos Contos de Fadas. São filmes, séries de tv e games que transformam essas histórias milenares em um show de carnificina desmedida, sem final feliz. Espero que essa nossa conversa sirva, também, para você contador, medir até onde pode ir. Um conto de fada sempre é a luta do bem contra o mal. É a história de um qualquer que se transforma graças a um vilão (tão importante para a trama quanto o protagonista: Cinderela só renasceu do borralho porque sua madrasta a jogou lá). É o protagonista se armando com o mal na ficção para poder combatê-lo na vida real. Não é a desgraça destruindo a esperança,  é o homem se encontrando consigo mesmo e se tornando, assim, humano: um ser divino e material.

Onde me escondi de mim?

Na terra, na água, nos meus sapatos.

Onde me encontro?

Na terra, na água, nos meus sapatos,

no fogo, no ar, no amor.

Encerro este texto aqui tendo plena consciência que para mim ele é a primeira faísca da fogueira que preciso acender ou o primeiro degrau a  ascender se desejo conhecer os saberes ligados às histórias.  Por muito tempo contei apenas com a sabedoria da vida. Hoje conto com a daqueles que resolvi seguir. Poderia seguir a outros: historiadores, antropólogos, sociólogos, neuro linguistas, poetas, atores, … mas a verdade que meu coração desejou ouvir, foi essa que contei. Cabe agora a você escolher a sua.

Em sua jornada o contador tem muitas opções de caminhos que se abrem em tantos outros. Alguns são mais largos, percorridos por muitos. Alguns mais estreitos, porém batidos, de tão pisados. Outros, inexplorados. A decisão de qual deve tomar é dele, mas a viagem, é  seu destino.

REFERÊNCIAS

JUNG, Carl G. O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.

FRANZ, M.-L. V. O feminino nos contos de fadas. Petrópolis: Vozes, 2010.

FRANZ, Marie-Louise von. A Interpretação dos Contos de Fada. São Paulo: Paulus, 1990.

Von-Franz, M.L. A sombra e o mal nos contos de fadas. São Paulo: Ed. Paulinas.       

Von-Franz, M.L. O significado dos motivos de redenção nos contos de fadas. São Paulo: Cultrix.     

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