AS HISTÓRIAS DO CAMINHO DO SOL

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Se você já leu o texto que escrevi sobre as personagens arquetípicas, já sabe que os contos arquetípicos representam a psique humana, com suas forças antagônicas, que nos impelem, que se repelem, que criam simpatias, antipatias, empatia, que nos travam ou fazem agir a favor ou contra o outro ou a favor ou contra nós mesmos. Podem ter sido criados intencionalmente ou intuitivamente. São a forma do que não tem forma.

A interpretação simbólica desses contos já foi objeto de muitas confrarias e de muitos pesquisadores que se encantaram com essas semelhanças entre psiquê e histórias. Também farei isso aqui, inserindo um componente a mais: o cosmo, ou melhor, o caminho do Sol e as constelações que lhe servem de fundo: o zodíaco.

Por ora não vou tratar da proposição hermética que diz que o que está em cima está embaixo, mas vou apontar que tanto a psique humana quanto as histórias são fruto de milênios de observação da natureza, dos astros e do caminho que os planetas percorrem no céu, incluindo aí Sol e Lua, relacionando-o às estações do ano. É quase que natural que tenhamos registrada na alma a história postulada pelo zodíaco, refletida nas histórias que contamos.   Quer ver?

Como as histórias geralmente começam? Com uma aridez e o chamado de um jovem a uma aventura que diz “eu vou!”. A história começa em áries, seu ímpeto, secura e  fogo.  Depois temos touro, que diz “não,… vou ficar aqui, comendo e arrumando meu farnel”, olhando a grama crescer e a terra cheirosa. Mas como não tem jeito, o protagonista parte em gêmeos, perambula pelo mundo tem experiências diversas, aprende por bem ou por mal, conhece um mentor ou companheiros de jornada e vai em frente. Eis que o viajante chega a outro mundo. É câncer, com sua energia maternal que o abraça como brisa morna. Geralmente aqui temos a água e sua travessia, características deste signo e a vontade de permanecer nesta espécie de entreposto. Neste mundo, toma ciência de sua missão e diz “não tem jeito, sou herói, preciso me salvar e salvar o mundo”, arruma sua juba leonina e se assume herói. Precisa aprender habilidades específicas que o prepararão para a batalha. É  virgem pé no chão que aparece neste momento. Em libra hesita, e vai, se aproxima do covil, ganha e dá presentes mágicos, troca de roupas e casa-se com seu oposto. Uma vez casado, o casamento é consumado em escorpião: há a grande batalha na caverna escura, na qual morre, renasce e ganha o elixir que salvará o mundo. Depois pega todas as energias da história e na flexa de sagitário vai até ao alto e vislumbra ao longe o seu destino. É hora de retornar, pois possui meta e propósito capricorniano e sabe muito bem o que precisa fazer. De volta a seu reino, deseja impetuosamente transformar o mundo e aquário entra em cena. Mas logo sai, porque percebe que seu poder é muito mais efetivo se dissoluto em peixes, como o grande mestre.

Essa foi uma pequena introdução para situar você, leitor, na ideia que defendo e lhe fazer um chamado: vem comigo nesta aventura!

Fere quem ama,

 explode no trânsito

ou a um dedo em riste.

Sente inveja,

mente sem perceber,

deseja o indesejável.

É, sem ser.

Anula, castra, sabota, aniquila.

À sombra que assombra o cego,

amiga do ego,

cabe a luz.

“A Azarenta” (Trad. do italiano para o alemão por Lisa Rüdiger e do alemão para o português por Heinz Wilda extraído do livro Homem e Mulher – Gudrun Burkhard – Ed Antroposófica onde é citado sem autoria) é a história que nos servirá como guia. Sugiro que a leia:

A Azarenta

Era uma vez sete filhas – somente filhas – de um rei e uma rainha. Tendo sido declarada guerra a seu reino, o pai perdeu a guerra e o trono, sendo feito prisioneiro. Enquanto o Rei estava na prisão, a família passava muito mal. Para economizar, a rainha deixou o castelo e todos se recolheram a uma cabana. Tudo saía errado, mas como por milagre eles encontravam alguma coisa para comer.

Um belo dia passou ali um vendedor de frutas, e a rainha o chamou para comprar alguns figos. Enquanto ainda estava a comprá-los, passou uma anciã pedindo esmola.

_ Ai, boa mãe! – disse a rainha – Se eu pudesse, não vos daria apenas uma esmola; mas eu também sou apenas uma pobre alma, e nada tenho.

_ E o que houve para serdes tão pobre? – perguntou a mulher.

_ Não o sabeis? Eu sou a rainha da Espanha, e caí em desgraça por causa da guerra que empreenderam contra meu marido.

_ Pobre alma, tendes razão. Mas sabeis também por que tudo vos fracassa? Tendes em casa uma  filha que é perseguida pela desgraça. Enquanto mantiveres a moça convosco, jamais podereis ter sorte.

_Então devo mandar embora uma de minhas filhas?

_ Sim Senhora.

 _ E qual delas é essa filha desgraçada?

_ Aquela que dorme com as mãos cruzadas. À noite, quando elas estiverem dormindo, acendei uma vela e observai-as. Aquela que encontrardes com as mãos cruzadas é a que deveis mandar embora; só assim podereis reaver vosso reino perdido. À meia-noite, a rainha pegou uma vela e se colocou frente às camas de suas filhas. Todas dormiam: uma com as mãos juntas, outra com as mãos embaixo do rosto e a terceira com as mãos embaixo do travesseiro. Chegando até a última, que era a mais nova, viu que ela dormia com as mãos cruzadas.

_ Ai, minha querida filhinha! Justamente tu é que tenho de mandar embora!

Enquanto assim dizia, a pequena acordou. Viu a mãe com a vela na mão e os olhos cheios de lágrimas.

_ Mamãe, o que tendes?

_Nada minha filha. Passou por aqui uma idosa mulher prevendo que eu não voltaria a ter sorte senão quando mandasse embora a desgraçada filha que dorme com as mãos cruzadas… e essa infeliz és tu.

_ Por isso que chorais? – Perguntou a filha. _Vou logo ir-me embora.

Então vestiu-se, atou suas coisas numa trouxa e deixou a casa. Ela andou e andou, e por fim chegou a uma relva deserta onde só havia uma única casa. Ao aproximar-se dela, ouviu as batidas de um tear e avistou mulheres tecendo.

_Queres entrar? Perguntou uma das mulheres.

_ Sim, boa mulher.

_Como te chamas?

_Azarenta.

_E queres servir-nos?

_Sim, boa mulher.

Ela começou a varrer e fazer o trabalho da casa. tarde as mulheres lhe disseram:

_ Escuta, Azarenta, à noite nós deixaremos a casa e te fecharemos pelo lado de fora, e tu a trancarás por dentro. Ao voltarmos, abriremos pelo lado de fora e tu abrirás do lado de dentro. Tens que cuidar para que não nos roubem a seda, os debruns e o pano de linho tecido. _E com isso, partiram.

A meia-noite estava chegando, e a Azarenta ouviu o bater das tesouras. Pegou a vela e chegou perto do tear. Viu uma mulher cortando com uma tesoura todo o pano de linho dourado do tear. Compreendeu que aquela mulher era sua má sina, e que a havia seguido até ali. Na manhã seguinte, voltaram as tecelãs. Abriram do lado de fora, e a moça do lado de dentro. Mal haviam entrado, viram a desgraça no chão.

_Oh, que impertinente! Esta a recompensa que recebemos por dar-te abrigo? Vai embora imediatamente! Fora! E expulsaram-na com um pontapé.

Azarenta continuou peregrinando pelo campo. Antes de chegar a uma aldeia, deteve-se diante de um armazém de pão, verduras, vinho e outras coisas. Pediu uma esmola; a dona lhe deu pão e um copo de vinho. Nisso,  entrou o marido dela. Ele teve pena da moça e disse que ela poderia passar a noite com eles, dormindo sobre os sacos, no armazém. Os donos dormiam em cima. Durante a noite, eles ouviram um barulho e se levantaram; os batoques dos tonéis haviam sido abertos, e o vinho corria por toda a casa. Quando viu a desgraça, o homem procurou a moça: ela estava deitada sobre os sacos e gemia, como em sonho.

_Impertinente! Só tu podes ter feito isso!

Pegou uma vara e bateu nela. Depois a pôs na rua. Ela não sabia para onde se dirigir, e afastou-se chorando. Ao amanhecer o dia encontrou no campo uma mulher lavando roupa.

_Por que olhas dessa maneira? – perguntou a lavadeira.

_Não sei para onde ir.

_Sabes lavar?

_Sim boa mulher.

_Então fica aqui e ajuda-me a lavar, eu ensaboo a roupa e tu enxáguas.

Azarenta começou enxaguando a roupa e pendurando-a no varal. Quando já estava seca, retirou-a de lá. Então a remendou, engomou e, por fim, passou-a a ferro. É bom sabermos que a roupa era do filho do rei. Quando o príncipe a viu, pareceu-lhe, deveras, maravilhosamente, limpa.

 _Dona Francisca – disse ele -, jamais me lavaste a roupa tão bem! Desta vez merecestes um gorjeta. – E lhe deu dez pratas.

Com dez pratas, Dona Francisca vestiu Azarenta da mais bela maneira, comprou um saco de farinha e assou pão. Junto com os outros pães, entretanto, fez dois bolos redondos com bastante anis e  gergelim, os quais pareciam dizer. “Come-me! Come-me!” Disse então a Azarenta:

_ Com este dois bolos, vai à beira-mar e chama por minha sina da seguinte maneira: “Aaah! Sina de Dona Franciscaaa!” E faze-o três vezes. Na terceira vez minha sina aparecerá. Tu lhe entregarás um dos bolos e lhe farás saudações por mim. Depois pedirás informações sobre onde mora a tua sina e procederás da mesma maneira com ela.

Depressa, Azarenta foi à beira-mar.

_ Aaah! Sina de Dona Franciscaaa!

_ Aaah! Sina de Dona Franciscaaa!

_ Aaah! Sina de Dona Franciscaaa! – e a sina de Dona Francisca apareceu.

Azarenta transmitiu a mensagem e entregou-lhe o pão. Depois perguntou:

_Sina de Dona Francisca, poderia Vossa Excelência ter a bondade de explicar-me onde mora a minha sina?

_ Escuta: segue um trecho desta trilha da praia, até chegar a um forno. Ao lado do buraco para o esfregão do forno, está sentada uma velha bruxa. Sê especialmente amável com ela e dá-lhe o bolo. Ela  é a tua sina. Verás que ela não quererá aceitá-lo e te tratará rudemente. Contudo, deixa o bolo com ela e prossegue teu caminho.

Azarenta chegou ao forno e encontrou a velha. Quase passou mal quando a viu, tão suja, remelosa e fedorenta que era.

_ Querida Dona Sininha, não queres dar-me a alegria de aceitar este presente? – bajulou, oferecendo-lhe o bolo. E a velha:

_Despacha-te! Quem te pediu pão? _ E virou as costas para Azarenta. Esta, todavia, depositou o bolo e voltou para a casa de Dona Francisca.

No dia seguinte, uma segunda-feira, era dia de lavar roupa. Dona Francisca pôs a roupa de molho, Azarenta a esfregou e enxaguou; quando estava seca, ela remendou e passou a ferro. Depois de passada, Dona Francisca a colocou numa cesta e levou ao castelo. Quando o príncipe a viu, exclamou:

_Dona Francisca, a mim não podeis enganar, roupa como esta, jamais me entregastes. – E deu-lhe dez pratas de gorjeta.

Dona Francisca novamente comprou farinha, assou mais bolos e enviou Azarenta com eles para as Donas Sinas. No próximo dia de lavar, o príncipe – que queria se casar e dava muita importância a que a roupa estivesse bem limpa – deu a Dona Francisca uma gorjeta de vinte pratas.  E desta vez ela não comprou apenas farinha para dois bolos; comprou para Dona Sina de Azarenta, uma bela blusa com renda e uma combinação, delicados lenços e um pente, creme para o cabelo e outras quinquilharias. Azarenta foi até o forno.

_Querida Dona  Sininha, eis um bolo para vós.

Dona Sina, que entrementes se havia tornado um pouco mais meiga, achegou-se resmungando, para receber o pão. Então Azarenta se lançou sobre ela, agarrou-a e começou a lavá-la com esponja e sabão, a penteá-la e vestir a velha, da cabeça aos pés, com roupa nova. A velha, que inicialmente se havia torcido como uma cobra, mudou seu comportamento a olhos vistos ao ver como brilhava de tanto asseio.

_Escuta, Azarenta – disse ela -,por teres sido tão boazinha comigo, dou-te esta caixinha. – E lhe deu uma caixinha tão pequena quanto uma caixa de fósforos.

Azarenta correu de volta para a casa de Dona Francisca e abriu a caixinha. Nela estava um pequenino pedaço de debrum. As duas ficaram um pouco desapontadas.

_Oh, ela realmente foi muito generosa – concluíram, e guardaram o debrum na última gaveta de uma cômoda.

Quando, na semana seguinte, levava a roupa ao castelo, Dona Francisca encontrou o príncipe de péssimo humor. A lavadeira, que estava bem familiarizada com o príncipe, perguntou-lhe:

_O que se passa, príncipe?

_O que se passa? Devo casar-me e agora se verifica que no vestido de noiva falta um pequenino pedaço de debrum, e em todo o reino não é possível encontrar debrum do mesmo modelo.

_Esperai, Majestade! – disse Dona Francisca, Correu para casa, procurou na cômoda e levou ao príncipe e pedaço de debrum.

Compararam-no então com o debrum do vestido de noiva e viram que ambos coincidiam exatamente. O príncipe disse: – Como me salvastes de tal constrangimento, quero pagar o debrum a peso de ouro. Buscou uma balança e num dos pratos colocou o debrum, colocando no outro ouro. Porém ouro nunca era suficiente. Experimentou o processo mais uma vez numa balança romana: o mesmo resultado.

_Dona Francisca – disse ele à lavadeira-, dizei-me a verdade. Como é possível que um pedaço de debrum pese tanto? De quem o ganhastes?

Dona Francisca, quisesse ou não, teve de contar tudo, e o príncipe quis conhecer Azarenta. A lavadeira aconselhou-a a vestir-se de modo a ficar muito bonita (com o tempo, elas haviam guardado algumas peças): depois levou a moça ao castelo. Azarenta entrou nos aposentos do príncipe e fez diante dele um gesto de grande cortesia: afinal era filha de um soberano, decerto não lhe faltava uma boa educação. O príncipe a saudou e, oferecendo-lhe um lugar, perguntou-lhe:

_Quem és tu, em verdade? -E Azarenta respondeu:

_Sou a filha mais nova do rei da Espanha, que foi expulso de seu trono e feito prisioneiro. Minha má sina obrigou-me a vaguear pelo mundo e a suportar grosserias, desrespeito e pancadas. – E contou-lhe todas as suas experiências.

Primeiro o príncipe mandou buscar as tecelãs, das quais a má sina havia cortado a seda e debrum.

_ Qual foi o vosso prejuízo?

_Duzentas pratas.

_Aqui tendes as duzentas pratas. Sabeis que esta moça em que batestes é uma princesa? Não o esqueçais! Sumi-vos daqui, depressa!

Depois mandou buscar os donos do armazém, dos quais a má sina havia derrubado tonéis.

_ E qual foi vosso prejuízo?

_ Trezentas pratas…

_Aqui tendes as trezentas pratas. Da próxima vez, porém pensai duas vezes antes de surrar uma princesa. Fora daqui!

A seguir desmanchou o noivado com a primeira noiva e casou-se com Azarenta. Como dama de honra, deu-lhe Francisca. Entreguemos os noivos à sua felicidade e alegria, e voltemos à mãe de Azarenta. Quando sua filha a deixara, a roda da sorte começara a girar a seu favor: um belo dia, seu irmão seus sobrinhos chegaram à frente de um poderoso exército e reconquistaram o reino. A rainha voltara com suas filhas para o castelo, onde novamente tinham todo o conforto. O que a atormentava, todavia, era a lembrança da sua filha mais nova, de quem ela mal sabia. O príncipe, no entanto, chegou a saber que a mãe de Azarenta tinha reavido seu reino. Enviou seus mensageiros até ela, mandando-lhe dizer que a filha se casara com ele. Encantada, a mãe pôs-se a viajar, acompanhada de cavaleiros e damas de honra. Acompanhada de cavaleiros e damas sua filha veio ao seu encontro. Elas se encontraram na fronteira e abraçaram-se por muito tempo. Muito comovidas, as seis irmãs acompanharam a cena. A seguir houve, nos dois reinos, uma grande festa.

Como toda história arquetípica, A Azarenta gira em torno da transformação da protagonista. Uma personagem nobre, mas desgraçada, que precisa descobrir quem realmente é, para se salvar e salvar o reino. Precisa encontrar o seu oposto, um tesouro inacessível,  a parte que lhe falta para ser feliz. Porém, para encontrar seu príncipe encantado precisa passar por sua sombra, no caso, sua Sina, ou seu destino, quem sabe, seu carma ou um grande trauma. Azarenta, a atitude consciente,  precisará colocar sua antagonista, habitante do inconsciente, sob seu domínio e para isso a conhece, a reconhece, a enfrenta e a transforma na aliada arma de renovação. É na jornada que faz isso.

É esse arco da narrativa, comum a todas as histórias arquetípicas e a história presente no arco do zodíaco.

Porém, antes de continuar a análise, preparo sua leitura ressaltando alguns pontos:

O rei preso representa a energia masculina que falta no conto. Azarenta é uma das sete filhas – aí já temos a noção do herói fragmentado que precisa integrar suas facetas. A jornada de Azarenta reflete o problema do pai, ambos iniciam presos: ele na masmorra, ela, de dedos cruzados, sem ação. O reino está seco, em crise, precisa ser renovado com uma atitude criativa: tanto crise quanto a criatividade vem da Sina, do que está escondida no inconsciente.

 O chamado da anciã é um chamado do inconsciente para a transformação, o amadurecimento, a subida de nível. É necessária a luz de uma vela a seu despertar para a longa viagem, rumo a ela mesmo, ao sagrado.  E por que a filha mais nova? É porque o mais novo é aquele que possui o ego mais mole, mais maleável, mais fácil de ser rompido, aquele que se lança à aventura aberto às mudanças.  Azarenta se lança aos desafios, passa por tarefas e provas menores e quando se tranca se depara à sua sombra – é ela a fragmentadora, a portadora da tesoura. Sofre e continua vítima de si mesma até o momento que se propõe a aprender. Seu ego precisa se quebrar e quando isso acontece, encontra a lavadeira Dona Francisca, a voz da sabedoria, mestre conhecedora da própria Sina,  que a recebe num mundo novo e a treina. Azarenta aprende a enxaguar, a remendar os pedaços, a esfregar (símbolo para uma nova atitude). Assim nasce a heroína que, orientada pela sua madrinha, por livre arbítrio e sozinha, mergulha numa outra estrada, agora já de cabeça erguida e que encontra sua sombra ao lado das vassouras, do buraco do forno, a lava, a enxagua, com a coragem necessária. Se nossa heroína não soubesse fazer tais tarefas muito provavelmente sucumbiria à sombra e lhe faria companhia pela eternidade. Quando passa pela sombra ganha a parte que falta para seu casamento com o príncipe e o final feliz do reino. Quando a aceita, restaura a conexão com seu inconsciente, quando a limpa consegue estabelecer laços afetivos. Se torna rainha, substitui seus pais. Se casa e abre a possibilidade para a gestação de um novo herói que a substituirá.

A proposta agora é subdividir a história de Azarenta  nas etapas da jornada do herói. Para fazer isso, poderia subdividi-la em duas, pontuando as polaridades. Isso já foi feito antes…

E se assim o fizéssemos, teríamos a parte da história que se passa em Espanha (mundo da ordem, do consciente) e a parte que se passa em França, nas terras de Dona Francisca (mundo do caos e do inconsciente). Na representação acima vemos claramente a semente da sombra nas terras do Rei e a necessidade de se mergulhar na terra das sombras para se trazer de lá a parte que falta para salvar o reino.

Em quase todos os contos de fadas temos o herói que sai de um mundo conhecido, dá  uma volta pelo desconhecido e depois retorna para o conhecido, agora com a consciência mais expandida. Começa como guerreiro, se torna herói e depois mestre. Olha a história dividida em três:

Poderia subdividi-la em quatro, afinal é assim que a natureza divide o ano. E a dividindo em quatro, poderíamos criar  portais de entrada, colocando em cada um deles um guardião.

Ou, quem sabe, em oito, como faz a tradição sufi:

Aqui vou dividir a história em doze etapas:

Não é difícil ver as semelhanças entre esta divisão e a sequência dos signos do zodíaco. Faço essa relação na sequência. O interessante é que a divisão pode ser mais depurada. Podemos subdividir cada um dos signos em três decanatos. Observe a figura abaixo:

Essa representação mostra a relação, de dentro pra fora, os elementos fogo, terra, água, ar relacionados aos signos do zodíaco. Cada signo é subdividido em três decanatos, com a energia de seus planetas e por fim, os arcanos menores do tarot. A minha análise estará dentro deste diagrama.

Localize Áries na imagem acima. É aí que começa nossa jornada. Se você não sabe nada a respeito de astrologia, pesquise os símbolos dos sete planetas e depois perceba que o primeiro decanato de Áries é de Marte, o segundo de Sol e o terceiro, de Vênus. Ou seja, a leitura segue um roteiro anti-horário.

Veja que os decanatos seguem uma sequência ordenada.

Não é à toa que a história surge com a crise de Marte e na sequência há uma conscientização solar. Depois vem o chamado da ânima, ligado à Vênus, seguido por um grande movimento de aprendizagem mercurial. Passado esse momento é necessário um descanso nutritivo proporcionado pela Lua. Depois da preguiça lunar é claro que vem o chamado ao dever de Saturno e uma grande expansão de Júpiter, pra depois voltar ao início em Marte.

Essa sequência também observamos em A Azarenta.  Abaixo subdividi a história nessas 36 etapas. Alerto que não são todas as histórias que fazem o ciclo completo e que essa subdivisão é uma tentativa artificial minha e você pode perceber elementos que me passaram despercebidos; tentei apenas esboçar esse fluxo de energia e, claro, há muitos pontos a serem considerados nessa divisão.

  1. Rei foi preso em batalha. O azar se instalou no reino, a rainha e suas filhas sofrem com a pobreza. Surge a necessidade de transformação. A Sina ainda não apareceu, mas sua ameaça se faz presente. O conto  precisará liderar todas as submentes em uma jornada de transformação.  Estamos em Áries signo regido pelo deus da  guerra e da crise, decanto de Marte, onde há tudo a conquistar.
  2. Uma velha revela que o mal agouro da família vem de uma filha que dorme de dedos cruzados e esta deve ir embora. Esta mulher faz papel de Arauto. É o inconsciente que evoca o consciente, mostrando o problema. Decanato do Sol: conscientização do problema.
  3. A Rainha encontra a mais jovem filha e a chama para a aventura, o herói da história foi escolhido. Vênus:  responsável pela seleção e pelo chamado da ânima.
  4. A mãe nega e reclama. Entramos em Touro, decanato de Mercúrio, onde é típico pessimismo e preocupação.
  5.  A rainha encontra o problema, mas este ainda não terminou. Decanato da Lua: há um certo alívio, mas…
  6. Azarenta pega seus recursos e se prepara para cumprir seu dever. Ela é jogada a aventura. Não tinha outra opção, se ficasse a sua má sorte destruiria o que sobrou do reino. Como é decanato de Saturno, o chamado ao dever é mais forte.
  7. Azarenta sai de casa e perambula pelo mundo feito Zeus (decanato de Júpiter) e como bom geminiano. Encontra as tecelãs. É momento de locomoção e aprendizado. Há grande movimento na história, uma grande curiosidade pelo novo, por tudo aquilo que está fora, ao redor… Muita versatilidade e expansão dos horizontes, sem muita direção. Primeiro momento de dissolução das certezas, de quebra de paradigmas.
  8. A Sina se apresenta para atordoamento de Azarenta. É nesta fase que a polaridade, típica de marte, representada por Azarenta e Sina são escancaradas. Nasce o vilão (nascimento também é típico de Marte)
  9. Azarenta continua peregrinando e sofrendo. Chega ao armazém derrotada. Aqui deixa de lado todos os automatismos e seu problema é reafirmado – a velha tinha razão.  Precisa quebrar o ego, para chegar limpa de dogmas em escorpião. Se não chegar assim  lá, se aliará à Sina e se transformará ela própria  na Sina. Aqui já está no decanato do Sol, momento de sacrifício do ego e destruição do velho paradigma.
  10. Depois da perambulação Azarenta chega ao fundo do poço, ou melhor a um rio e ali encontra um mundo novo. Ela atravessa o limiar de Câncer e se deixa nutrir por uma energia maternal. O decanato é de Vênus quando Azarenta se entrega e é resgatada pela ânima. Sai da Espanha e entra em França. Neste limiar há  Dona Francisca que a treina.
  11. Azarenta e Dona Francisca passam a viver juntas. É momento de cura mercurial.
  12.  Confortavelmente Azarenta fica ajudando Dona Francisca, ganhando presentes. Está na zona de conforto, que é boa, mas possui algo em excesso. Poderia ficar assim para sempre, típico do decanto da Lua.
  13. Surge a necessidade da coragem e do herói assumir seu papel: Leão começa no decanato se saturno, Azarenta aceita o dever de domar sua Sina, e toma isso como objetivo. Ela vê que precisa ir em busca de sua felicidade.
  14. Decanato de Júpiter: Azarenta viaja e se expande, passa a desejar o novo. Se encontra com a Sina de Dona Francisca.  Como ela assumiu a responsabilidade, as coisas começaram a se consertar. Usa os presentes mágicos.
  15.  Marte traz a  coragem para o primeiro contato com sua Sina.
  16. Em Virgem Azarenta se prepara. Há provas, tarefas simples, que mais parecem treinamento; Azarenta vai evoluindo na arte do lavar e do remendar. Só depois de muito treinamento esfrega a roupa. Toma ciência (Decanato do Sol) do que vai enfrentar.
  17.  Segue em seu preparo. Momento de se organizar, melhorar as coisas, deixar tudo bonito, ver se está tudo certo. Está em Vênus.
  18. O final do treinamento é marcado por Mercúrio. Ela fez tudo bem feito, já aprendeu a lavar, a passar, a costurar. Está curada e pronta.
  19. Recebe a “benção da deusa” em Libra, no decanto da Lua Azarenta assume uma posição humilde. Intuição vem ajudar.
  20. Em Saturno a Sina sai do covil, o dever ganha forma.
  21. Azarenta se aproxima ponderadamente, espera o tempo de Júpiter.
  22. Azarenta enfrenta a sombra, a Sina.  Aqui se faz o que é preciso, doa a quem doer.  Precisa tirar as roupas, as máscaras , as ilusões. O arrumar o cabelo é símbolo para ordenação do inconsciente. É Marte de Escorpião
  23. Ambas se transformam. Renascem com novas roupas. O veneno de escorpião se tornou remédio solar quando Azarenta, voluntariamente, se expôs aos seus medos.
  24.  Surge a verdade e a cura profunda de Vênus.  A Sina torna-se outra. A porção do feminino do conto está integrada.
  25. Começa nova fase da história. Azarenta já está salva, falta a ordem do mundo. Em Sagitário subimos os degraus rumo ao reino. Azarenta ganha o elixir que salvará o mundo: a parte que falta e o leva até Dona Francisca. É decanato de Mercúrio e tomam ciência do  “ segredo dos deuses”
  26.  A princípio não dão valor. É momento da Lua e do teste da hibris.
  27.  O carma ainda está presente: saturno chama ao dever de auxiliar o príncipe. O pedaço masculino precisa de ajuda.
  28.  Em Capricórnio aqui fica claro que ainda resta um trabalho social de restauração do mundo através da queima do carma e de ações concretas. No decanato de Júpiter Dona Francisca usa o presente que Azarenta ganhou.
  29. Em Marte precisa mudar o mundo: surge um novo objetivo, mais virtuoso. Não tem como ficar na casa de Dona Francisca. Azarenta recebe responsabilidades.
  30.  No decanato do Sol, Azarenta se apresenta.
  31. Aquário vem com a necessidade de mudanças. Em Vênus Há o pagamento das dívidas de Azarenta às tecelãs e aos vendeiros, que também pagam por seus atos. É o confronto com o passado.
  32.  A recompensa por ter pago o preço vem em mercúrio: Azarenta e príncipe se casam
  33. No decanato da Lua há uma tentação para que a história acabe, mas ainda há a família real espanhola.
  34. Em Saturno de Peixes  o herói  busca libertação final. O Masculino e o feminino estão juntos, mas existem as forças do início da história que precisam ser integradas.
  35. Azarenta viaja. Mostra-se nova fase da vida. Há um sentimento de completude. Decanato de Júpiter.
  36. Azarenta, se torna herói de dois mundos, a espera do começar de novo. É Marte com a força necessária para términos e começos.

          Antes de encerrar esse estudo, preciso alertar que são poucos os contos que fazem essa volta completa do logos. O que encontramos é um esquema geral que opta por colorir apenas algumas partes específicas. O que todos os contos têm em comum é essa necessidade de enredar a transformação da protagonista numa sequência de energia pré estabelecida, a mesma energia mapeada nas constelações, inspiradas na natureza humana. A jornada é acima de tudo um processo psíquico, é o herói se torna o senhor dos dois mundos, o de dentro e o de fora. Ele faz a viagem: sai do caos instaurado na ordem e encontra a semente da ordem no caos e volta com a cura, num ato heroico de transformação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Esse texto foi estruturado principalmente a partir da palestra de Talles Menegon, “A astrologia e a jornada do herói”.

CAMPBELL, Joseph . O HEROI DE MIL FACES – 1ªED.(2007). Editora: Pensamento

PROPP, Wladimr. A MORFOLOGIA DO CONTO MARAVILHOSO. Editora: CopyMarket.com, 2001 (1ª ED: 1928)

                           . Raízes históricas do conto maravilhoso. Editora: Martins Fontes (2003). (1ª Ed: 1946)

VON FRANZ, Marie-Louise. A interpretação dos Contos de fadas. São Paulo: Pauulos, 1990, 225 São Paulo: Paulinas, 7º ed. 2008

_____________. A sombra e o mal nos contos de fadas. São Paulo: Paulinus, 1985. pg 272.

___________. A individuação nos contos de fadas

___________. Ânima e animus nos contos de fadas

VOGLER, CHRISTOPHER. JORNADA DO ESCRITOR: Estruturas míticas para escritores. NOVA FRONTEIRA, Rio de Janeiro, 2006 | 2a. Edição revista e ampliada

JUNG, Carl Gustav (ORG). O HOMEM E SEUS SIMBOLOS. Editora HarperCollins Brasil – 3ªED.(2016)

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