A PARTE QUE FALTA E O PROBLEMA DO REI

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O que falta?

É o que alma pergunta.

Com a pergunta, traz a sede,

com a sede, aponta o caminho.

Depois cuida, vela,

esperando o reencontro.

          Ao escrever este texto parto do pressuposto que você já leu o que escrevi sobre a história de Azarenta. Naquela análise conversei com a astrologia. Muito provavelmente “Azarenta” é um dos muitos contos que guardam segredos alquímicos: em seu enredo  há o percurso da transformação da alma, da morte e do renascimento, da busca pela parte que falta, pelo segredo que a sombra guarda. Essa busca não é específica desse conto, mas de todos. Na sequência vou colar um conto da região da Pérsia, que já foi contado e recontado inúmeras vezes, cuja referência se perdeu. Leia-o com as pergunta: o que falta?

ANAEET – CONTO PERSA

Há muito tempo atrás, havia um reino governado por uma grande rainha, e que tinha um filho chamado Vachagán.

O jovem príncipe havia sido criado de acordo com a antiga tradição persa: era versado em astronomia, matemática e poesia, bem como se tornara um mestre em artes marciais. Vachagán era para sua época, um excelente herdeiro do trono persa. Entretanto, não havia encontrado uma mulher que lhe interessasse e que satisfizesse as exigências da Casa Real.

Contam os antigos moradores desse reino, que um dia, o príncipe partiu em caravana para exercitar nos campos abertos o tiro ao alvo e o adestramento de falcões. E quando passava com sua “trupe” por uma vila de tecelões, parou seu cavalo junto a uma fonte, onde mulheres enchiam suas ânforas de água. Fazia muito calor, a água parecia fresca. Dirigindo-se a uma das mulheres disse:

-Sirva-me, por favor, uma cuia de água.

A jovem perplexa com a aparição e postura dele, tirou uma cuia de seu avental para atendê-lo. Mas, uma outra companheira se adiantou e com um gesto rápido, colheu com sua cuia um pouco de água, dizendo:

-Senhor, não beba já a água, deixe-me aquecê-la um pouco em minhas mãos.

Todos estavam surpresos com a interferência da moça.

Entretanto o príncipe compreendeu que estava suando muito e que seria prudente não beber água gelada, e respondeu a Anaeet:

-Obrigada! Você me salvou de minha impetuosidade. Quem é você, e como posso lhe agradecer?

 A jovem disse chamar-se Anaeet, filha do mais conhecido tecelão persa, famoso por ter inventado algumas tramas novas (naquele tempo cada família de tecelões desenvolvia uma trama própria), tendo feito sua marca chegar aos quatro cantos do mundo.

O príncipe se interessou em conhecer sua família, e foi levado por ela à sua casa, acompanhado de sua comitiva. Em pouco tempo, Anaeet se tornou eleita de Vachagán e da rainha. Mas, antes de aceitar casar-se com o príncipe Aneet anunciou que não se casaria com um homem que não tivesse conhecimento do tear, não tivesse desenvolvido sua própria marca. Alegou que os títulos de nobreza e o dinheiro são fugazes como o vento, mas que as habilidades uma vez desenvolvidas servem à arte de viver.

O jovem príncipe entre surpreso e determinado prometeu a Anaeet, que atenderia sua exigência e, voltando ao palácio, mandou convocar mestres tecelões locais e estrangeiros para o ensino do tear. Em pouco tempo, um enorme tear tinha sido colocado no mais amplo salão do edifício, e aí o príncipe passava longas horas aprendendo a tecer os fios mais nobres que encontrava e, buscando desenvolver as cores mais inusitadas, estudando os símbolos sagrados que sua família cultivava há séculos.

Depois de algum tempo, Vachagán havia desenvolvido não só suas próprias tramas, como criado desenhos muito especiais para Aneet.

Então enviou presentes à família da moça e, junto com eles mandou entregar o tapete que havia criado para ela. Dias depois apresentou-se de novo a sua família pedindo-a em casamento.

Anaeet e Vachagán casaram-se e passaram a reinar em paz e harmonia o reino que herdaram da rainha-mãe. Até que um dia, começaram a reinar também terríveis boatos na corte de que alguns tecelões pareciam desaparecer misteriosamente do mercado principal da capital do reino. Os jovens reis começaram a temer pela vida de todos os tecelões e pelas mulheres e crianças que ficariam sem um esteio da família. Anaeet, que era extremamente intuitiva e dinâmica o estimulou a disfarçar-se de tecelão e ir ao mercado principal verificar o que acontecia. Dito e feito. Vachagán chegou um dia ao mercado trazendo tapetes e, se acomodou junto a uma tenda, expondo alguns tapetes. O dia inteiro passou sem que nada suspeito acontecesse. Todavia, no final da tarde, quando o lusco-fusco do cair da tarde se fazia presente, um homem muito atraente adentrou o pátio principal e com voz potente começou a convocar tecelões experientes para tecer para honrar Alah! Imediatamente, um par de homens se alistou e Vachagán aproveitando-se da escuridão da lua minguante se apresentou. Uma pequena fila de alguns tecelões se formou e, eles foram encaminhados pelo pregador por um atalho de um bosque, chegando depois de algum tempo, antes do amanhecer à entrada de uma caverna, quando uma enorme e pesada porta de ferro se abriu e dois enormes guardas os receberam e os introduziram rapidamente para dentro.

A caverna era enorme, semi-iluminada por tocha, e se compunha de vários cubículos. Em alguns havia muitos tapetes e homens comendo com sofreguidão, em outros velhos esfarrapados e magros, deixados à míngua.

Vachagán logo compreendeu que aí só comia quem produzia e convocou seu grupo para produzir o melhor tapete jamais executado

Enquanto isso, Anaeet cuidava do reino e da parte íntima de seu jardim.

Sem perder tempo, Vachagán desenhou em sua mente um tapete que reproduzia o jardim de Anaeet e os símbolos sagrados de sua família, explicando aos companheiros sua visão. Ao mesmo tempo buscou ao pregador dizendo que iria fazer um tapete digno de Alah e de uma rainha. Aos poucos, o rei-tecelão foi passando em surdina entre os homens da caverna que um exército viria libertá-los das garras do falso sacerdote.

Aneet aguardou meses a volta do marido, mas em vão buscava por notícias.

O arguto comerciante e falso pregador, logo percebeu que o tapete da equipe de Vachagán era o melhor até então produzido e resolveu leva-lo à Rainha Anaeet. E assim foi. Ao abri-lo diante dos olhos da Rainha, esta se deu conta de que aquela pessoa havia raptado seu marido. Chamou os guardas que o levaram preso e seus acompanhantes foram forçados a levar um grupo de soldados reais à caverna.

Todos foram libertados e gritaram: -Vachagán! Viva Vachagán!

Mas, o rei convidou a todos para uma celebração no palácio. As portas foram abertas aos tecelões libertados. No dia seguinte, dançaram e cantaram juntos, celebrando a vida.

Em determinado momento, o rei Vachagán pediu a atenção de todos e disse:

-Senhores, convoco vivas à rainha Anaeet, graças à sua inteligência e valentia fomos encontrados e libertados.

Muitos vivas foram ouvidos das várias partes do palácio, e até hoje dizem que mesmo em ruínas é um palácio que inspira luz, graça e dignidade.

(Você encontra essa história em https://youtu.be/TWMsg1etJY0 – acesso em 21 de abril de 2022)

          Veja que a estrutura geral deste conto se deita sobre a estrutura que vimos em Azarenta. Temos um protagonista que precisa adentrar em terras desconhecidas para lá encontrar o que lhe falta e solucionar um grande problema seu. E o que lhe falta? É sobre isso que vamos explorar sob um outro olhar alquímico, o da psicologia analítica.

          Anaeet é um dos tantos contos alquímicos/cabalistas, isso é inegável, principalmente porque vem de uma região onde esse tipo de “pensamento”  floresceu.

Para essa análise usei quatro livros de Marie-Louise Von Franz: “A individuação nos contos de fadas”, “A interpretação dos contos de fadas”, “Ânimus e ânima nos contos de fadas” e “A sombra e o mal nos contos de fadas”. Sugiro que os leia e encontre as suas relações, os seus insights.

Marie Loouize Von Frans, em seu livro “A interpretação dos contos de fadas” coloca que a chave para a compreensão do conto é se perguntar: “o que falta?”  –   provavelmente esse tema se repete várias vezes durante esse conto, pois um conto de fada, assim como um tapete é uma unidade, cujo tema é um só. 

Apesar da unidade do conto, apenas para fins didáticos, desfiarei a história.

Há muito tempo atrás, havia um reino governado por uma grande rainha, e que tinha um filho chamado Vachagán.

Lá vem a pergunta: “O que falta?” falta um rei e a sua força de comando. É necessária uma renovação: o príncipe precisa se tornar rei. Essa mesma ausência masculina se repete quando os artesãos, PAIS  e esteios de família desaparecem.

O jovem príncipe havia sido criado de acordo com a antiga tradição persa: era versado em astronomia, matemática e poesia, bem como se tornara um mestre em artes marciais. Vachagán era para sua época, um excelente herdeiro do trono persa. Entretanto, não havia encontrado uma mulher que lhe interessasse e que satisfizesse as exigências da Casa Real.

O príncipe era versado no pensar e nos conhecimentos ancestrais. Seu agir no mundo é superficial e lhe  falta um olhar sobre as emoções – esse é seu grande problema moral. “O que mais falta?” falta uma princesa. O príncipe precisa entrar em contato com sua porção feminina, para dar cor e sabor à sua vida, entrar no modo criativo, se tornar ele mesmo e renovar o reino.

Contam os antigos moradores desse reino, que um dia, o príncipe partiu em caravana para exercitar nos campos abertos o tiro ao alvo e o adestramento de falcões. E quando passava com sua “trupe” por uma vila de tecelões, parou seu cavalo junto a uma fonte, onde mulheres enchiam suas ânforas de água. Fazia muito calor, a água parecia fresca. Dirigindo-se a uma das mulheres disse: “Sirva-me, por favor, uma cuia de água.” A jovem perplexa com a aparição e postura dele, tirou uma cuia de seu avental para atendê-lo. Mas, uma outra companheira se adiantou e com um gesto rápido, colheu com sua cuia um pouco de água, dizendo: “Senhor, não beba já a água, deixe-me aquecê-la um pouco em minhas mãos.”

Em campo aberto o príncipe treina duas atividades tipicamente masculinas, que a princípio o ensinariam governar. Porém, para ser um rei pleno, primeiro precisa aprender a se governar. E é isso que Annaet ensina. Ela o ensina a lidar com a impaciência, com  as emoções. Em termos psicológicos Annaet é a porção feminina do príncipe, aquela que carrega a cuia/útero, sua ânima, uma vez que vem de uma camada mais baixa da própria psique (representada pela classe social). Ela, pelo desejo dela, o inicia na arte da integração, lhe oferecendo água, símbolo da força vital, criativa e das emoções. Na página 126 do livro “A individuação nos contos de fadas” MLVR coloca que é a ânima que estabelece a meta do processo de individuação. Ou seja, é ela que cria a sede, a inquietude pela vida, e é ela mesma que aponta o caminho para a integração e a sabedoria.

Todos estavam surpresos com a interferência da moça. Entretanto o príncipe compreendeu que estava suando muito e que seria prudente não beber água gelada, e respondeu a Anaeet: “Obrigada! Você me salvou de minha impetuosidade. Quem é você, e como posso lhe agradecer?” . A jovem disse chamar-se Anaeet, filha do mais conhecido tecelão persa, famoso por ter inventado algumas tramas novas (naquele tempo cada família de tecelões desenvolvia uma trama própria), tendo feito sua marca chegar aos quatro cantos do mundo.

No livro “A sombra e o mal nos contos de fada”, pag 35, MLVF coloca que a tecelagem simboliza o poder arquetípico de transformação do homem, uma nova atitude, uma força ligada à inteligência, o poder de superar a inteligência mais primitiva. Annaet, portanto tinha o poder de apontar essa nova atitude.

O príncipe se interessou em conhecer sua família, e foi levado por ela à sua casa, acompanhado de sua comitiva. Em pouco tempo, Anaeet se tornou eleita de Vachagán e da rainha. Mas, antes de aceitar casar-se com o príncipe Aneet anunciou que não se casaria com um homem que não tivesse conhecimento do tear, não tivesse desenvolvido sua própria marca. Alegou que os títulos de nobreza e o dinheiro são fugazes como o vento, mas que as habilidades uma vez desenvolvidas servem à arte de viver.

E lá vem a pergunta novamente: “ o que falta?” – falta a marca no mundo, a individualidade.  E para escrever seu nome no grande livro universal  como ser único, o que é preciso? É necessário ser criativo, agir no mundo material, tendo como ponto de partida o que os antepassados criaram. E quem faz esse chamado? A ânima – é ela quem tece do processo de individuação.

O jovem príncipe entre surpreso e determinado prometeu a Anaeet, que atenderia sua exigência e, voltando ao palácio, mandou convocar mestres tecelões locais e estrangeiros para o ensino do tear. Em pouco tempo, um enorme tear tinha sido colocado no mais amplo salão do edifício, e aí o príncipe passava longas horas aprendendo a tecer os fios mais nobres que encontrava e, buscando desenvolver as cores mais inusitadas, estudando os símbolos sagrados que sua família cultivava há séculos. Depois de algum tempo, Vachagán havia desenvolvido não só suas próprias tramas, como criado desenhos muito especiais para Aneet. Então enviou presentes à família da moça e, junto com eles mandou entregar o tapete que havia criado para ela. Dias depois apresentou-se de novo a sua família pedindo-a em casamento.

Temos aqui nosso herói, experienciando o mundo através da água, das emoções,  produzindo arte (forma de contato com o mundo arquetípico) e se tornando sábio.

Anaeet e Vachagán casaram-se e passaram a reinar em paz e harmonia o reino que herdaram da rainha-mãe. Até que um dia, começaram a reinar também terríveis boatos na corte de que alguns tecelões pareciam desaparecer misteriosamente do mercado principal da capital do reino.

Olha a pergunta novamente: agora faltam os homens, tecelões, pais de família, membros do povo. Já discorremos sobre essa parte desse aspecto, porém aqui há ainda mais um detalhe: quem some são os produtores do mundo criativo, da alegria de viver. São homens do povo, provavelmente simbolizando aqui também as emoções, o ponto fraco. Se tudo isso falta, temos a depressão, e com ela vem a necessidade do elixir, da jornada de um herói que conscientemente entra no mundo sombrio e traz de lá a cura. Aqui temos até a passagem da troca de pele, indício da “quebra do ego” e a orientação da ânima em libra: é ela quem guarda e quem ensina a lidar com a sombra:

Os jovens reis começaram a temer pela vida de todos os tecelões e pelas mulheres e crianças que ficariam sem um esteio da família. Anaeet, que era extremamente intuitiva e dinâmica o estimulou a disfarçar-se de tecelão e ir ao mercado principal verificar o que acontecia. Dito e feito. Vachagán chegou um dia ao mercado trazendo tapetes e, se se acomodou junto a uma tenda, expondo alguns tapetes. O dia inteiro passou sem que nada suspeito acontecesse. Todavia, no final da tarde, quando o lusco-fusco do cair da tarde se fazia presente, um homem muito atraente adentrou o pátio principal e com voz potente começou a convocar tecelões experientes para tecer para honrar Alah! Imediatamente, um par de homens se alistou e Vachagán aproveitando-se da escuridão da lua minguante se apresentou.

Quando o rei se colocou na posição do transeunte, se colocou aberto à transformação, à quebra do ego, rumo ao eu. Vachagan vai voluntariamente ao covil – não espera o mal tomar o reino. Aqui há dois detalhes importantes: o lusco-fusco (hora propícia à bruxaria) do entardecer e a lua minguante, momento de reavaliação e espera pela transformação.

Uma pequena fila de alguns tecelões se formou e, eles foram encaminhados pelo pregador por um atalho de um bosque, chegando depois de algum tempo, antes do amanhecer à entrada de uma caverna, quando uma enorme e pesada porta de ferro se abriu e dois enormes guardas os receberam e os introduziram rapidamente para dentro.

Entramos aqui no reino das sombras. Um portal (porta da lua) com uma simbologia cabalística e/ou maçônica  muito forte, se abre. Os dois guardas são os pilares externos (severidade e misericórdia), assim como as vassouras da boca do forno  em “Azarenta”, e o pilar central (sabedoria) é o próprio Vachagan . E o ferro, metal de marte, reforça a ideia.

A caverna era enorme, semi-iluminada por tocha, e se compunha de vários cubículos. Em alguns havia muitos tapetes e homens comendo com sofreguidão, em outros velhos esfarrapados e magros, deixados à míngua. Vachagán logo compreendeu que aí só comia quem produzia e convocou seu grupo para produzir o melhor tapete jamais executado.

Chegamos a escorpião, no centro do inconsciente, onde e quando a transformação acontece. Aqui fica claro que quem não se conecta ao mundo sombrio e criativo do inconsciente, não se alimenta de vida criativa, não marca a sua individualidade, definha e seca, se perde nos labirintos  desse mundo dos mortos vivos. Fica clara aqui também a atitude de comando, consciente, do príncipe em contraposição às atitudes perdidas dos demais homens. E é com essa atitude de comando que também ludibria a própria sombra – não entra em conflito com ela – sede a seus desejos, para que, com uma solução criativa, se liberte dela. E o fato de Vachagan conhecer a linguagem dos símbolos, expande imensamente a sua capacidade de atuação nesse mundo.

Enquanto isso, Anaeet cuidava do reino e da parte íntima de seu jardim.

Mais uma vez a ânima provendo. Ela o lançou na jornada, mas cuida. É a benção da deusa.

Sem perder tempo Vachagán desenhou em sua mente um tapete que reproduzia o jardim de Anaeet e os símbolos sagrados de sua família, explicando aos companheiros sua visão. Ao mesmo tempo buscou ao pregador dizendo que iria fazer um tapete digno de Alah e de uma rainha. Aos poucos, o rei-tecelão foi passando em surdina entre os homens da caverna que um exército viria libertá-los das garras do falso sacerdote.

Aqui o príncipe precisa se isolar com outros homens para recuperar sua voz de comando. Como se relaciona bem com seu lado criativo, tem a possibilidade de integrar a sombra. E como faz isso? Tecendo imagens no fundo de uma caverna e enviando mensagens ao reino através de símbolos. É ele se renovando mais uma vez.  Tecendo entra em contato com o tapete – provável representação do self, da integração, da totalidade .  Sobre isso, Von Frans aponta:

“a melhor forma de um homem constelar, ou capturar sua ânima interiormente, seria produzindo imagens e, portanto, captando a própria alma” (A INDIVIDUAÇÃO NOS CONTOS DE FADAS, pag 262).

Aneet aguardou meses a volta do marido, mas em vão buscava por notícias. O arguto comerciante e falso pregador, logo percebeu que o tapete da equipe de Vachagán era o melhor até então produzido e resolveu leva-lo à Rainha Anaeet. E assim foi. Ao abri-lo diante dos olhos da Rainha, esta se deu conta de que aquela pessoa havia raptado seu marido. Chamou os guardas que o levaram preso e seus acompanhantes foram forçados a levar um grupo de soldados reais à caverna.

Aqui é possível fazer uma relação com os símbolos: eles nos ajudam a fazer a conexão com o sagrado. São uma ponte – mandalas. Vachagan conseguiu operar nesse mundo porque conhecia os símbolos sagrados.

Voltando à história: veja que a rainha, aqui não aniquila a sombra, mas a transforma em serva. Isso é bem característico da integração. Se anulada, a sombra volta mais tenebrosa. Se posta a serviço, se transforma em aliada.

Todos foram libertados e gritaram: “Vachagán! Viva Vachagán!”. Mas, o rei convidou a todos para uma celebração no palácio. As portas foram abertas aos tecelões libertados. No dia seguinte, dançaram e cantaram juntos, celebrando a vida. Em determinado momento, o rei Vachagán pediu a atenção de todos e disse: “Senhores, convoco vivas à rainha Anaeet, graças à sua inteligência e valentia fomos encontrados e libertados”. Muitos vivas foram ouvidos das várias partes do palácio, e até hoje dizem que mesmo em ruínas é um palácio que inspira luz, graça e dignidade.

Ele busca que todos reconheçam que ela foi peça importante para que fossem libertados. Mais uma vez se reforça que para ser rei, é preciso integração.

Como coloquei acima, no início desse texto, o conto de fada é um todo coeso que repete inúmeras vezes o mesmo mote: o príncipe precisa se transformar em rei, renovar e unificar seu reino, juntar as partes que faltam, e honrar essas partes. Enquanto rei, carrega a força de comando, o poder dos símbolos antigos, e o poder de criar símbolos novos, tendo a seu lado as emoções e a habilidade criativa de renovação, de uma reconexão com o mundo espiritual.

REFERÊNCIAS

VON FRANZ, Marie-Louise. A interpretação dos Contos de fadas. São Paulo: Paulos, 1990, 225 São Paulo: Paulinas, 7º ed. 2008

_____________. A sombra e o mal nos contos de fadas. São Paulo: Paulinus, 1985. pg 272.

___________. A individuação nos contos de fadas

___________. Ânima e animus nos contos de fadas

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